Disciplined Agile na prática: percepções de quem conhece e aplica
O Disciplined Agile (ou DA), embora já exista desde 2012, ainda é novidade no mercado, tanto nacional quanto internacional. No Brasil, algumas empresas já aplicam a abordagem e têm colhido os frutos. No post de hoje, trarei algumas percepções da Carla Krieger, uma das pioneiras em Disciplined Agile no Brasil e que, generosamente, concedeu uma entrevista ao IniciaGP.
Carla Krieger é CDAC®, DA Agilist, SAFe® Agilist, PMP®, CSM® e ITIL–F. Possui mestrado pela UFRGS e MBA Executivo pela ESPM. É Coach Certified pelo ICC — Institute of Coaching Community, graduada pelo PMI Leadership Institute Master Class e especialista em Transformação Cultural Sistêmica. Atualmente trabalha como Enterprise and Team Agile Coach no Grupo Globo e como Advisor da Startup MOJO.
Na entrevista, realizada no início de setembro, procurei levantar as principais dúvidas de quem, como eu, ainda não teve a experiência prática com Disciplined Agile.
Daniela: Como teve o primeiro contato com DA?
Carla: Embora minha primeira experiência com ágil tenha sido em 2003, foi em 2018, na época em que trabalhava com projetos governamentais, com contextos e desafios diferentes, múltiplos times, abordagens híbridas e ágil escalado, que conheci o DA. Para lidar com esse cenário, comecei a pesquisar sobre abordagens que permitissem obter resultados neste contexto. Ainda era muito difícil encontrar cursos e formações sobre esta abordagem no Brasil, então acabei me certificando como SAFe® Agilist, mas comecei a aplicar conceitos de DA no meu dia a dia.
Daniela: Como e por que decidiu se certificar DASLM® e CDAC®?
Carla: O DA ia ao encontro a muitos dos meus princípios e crenças, então esse foi um dos motivos para me certificar. Além disso, me considero uma “inovator” na curva de adoção de inovação. Em meados de 2019, o PMI® adquiriu o DA Consortium e realizou um piloto com brasileiros que possuíam os requisitos para se certificar: era necessário se inscrever e ser selecionado para participar desse piloto, e eu fui uma das selecionadas. Os workshops presenciais aconteceram em Las Vegas e foram seguidos das provas e entrevistas. No entanto, não passei pelo caminho “normal”, já que ao invés de fazer um workshop para cada certificação, fiz apenas o workshop do CDAC®, as duas provas (DASLM® e CDAC®) e depois comprovei as experiências necessárias para a obtenção do CDAC®.
Daniela: Quais foram os benefícios de se certificar em DA?
Carla: Pensando em mercado, o DA ainda é pouco conhecido, ainda está no início da curva de adoção pelos profissionais e pelas empresa, tanto no Brasil, quanto fora, inclusive porque a DA Consortium era uma empresa pequena. No entanto, pensando como profissional, uma certificação valida a experiência e, no meu caso, também é muito aderente à forma que penso, aos meus valores.
Daniela: Como aplica o DA no dia a dia?
Carla: Como traz práticas do mercado, você usa para ajudar em desafios no dia a dia. Comecei aplicando no nível que tinha autonomia para, sem mencionar que usava DA. Inclusive, este é um ponto interessante sobre o DA: não é “implantável”, como um método ou framework, mas precisa ser incorporado à cultura da organização. Por exemplo, para um PMO que queria se tornar um VMO, é importante usar um canvas estratégico de mudanças, para identificar o propósito (por quê e para quê). É preciso identificar o “para que estou fazendo mudanças” antes de identificar o “como fazê-las” (quais ferramentas e abordagens serão utilizadas). De igual forma, olhar a governança, incluindo lean governance, papéis e responsabilidades e indicadores (p.ex. OKR) são pilares importantes para aplicar efetivamente o DA, que, nada mais é, do que um toolkit, um kit de ferramentas que podem ser usadas conforme o contexto, o propósito e os desafios: para cada dor, traz alternativas. Em resumo, o DA já fez o benchmark para cada tipo de desafio; ele já mapeou, para cada desafio, quais são as ferramentas, técnicas, frameworks e abordagens podem te ajudar, mas, ao mesmo tempo, não é prescritivo, mas sim te dá sugestões.
Daniela: E, pegando os pontos que você comentou, é preciso ter muita experiência para aplicar o DA?
Carla: A experiência conta muito, mas o DA pode ser aplicado também a nível de time. Por exemplo, se você é um Scrum Master, pode utilizar o DA para te ajudar nos desafios com o time, entendendo o contexto e utilizando o ciclo de vida mais adequado a este contexto. Ou seja, o DA pode ser aplicado, independente da experiência que o profissional possua. Mas, claro, quanto mais bagagem, mais fluída será a aplicação.
Daniela: Quais são os maiores desafios de aplicar o DA?
Carla: Cultura é o principal desafio. Aplicar o DA em nível de organização requer maturidade. A primeira prática do DA é que os times escolhem como vão trabalhar, ou seja, o método ou framework utilizado pelo time não pode ser definido de cima pra baixo (top-down), mas cada time tem autonomia para definir qual formato poderá gerar mais resultado para o seu contexto.
Daniela: E qual o maior desafio ao apresentar DA para diretores e CEOs?
Carla: Precisa ser apresentado com dados e fatos. Resultados precisam ser apresentados para convencer que precisa mudar: mostrar desperdícios (inclusive financeiro) que existem pelo formato de trabalho atual. Mas também é importante, é claro, explicar que o DA não resolverá todos os problemas, mas que as ferramentas e práticas sugeridas por ele precisam ser testadas e medidas, a fim de gerar melhoria contínua.
Daniela: Quais dicas você daria para quem conhecer mais sobre DA? E para quem quer se certificar DA Agilist?
Carla: Para começar, use! As empresas olham estrategicamente, mas está na mão do profissional que está na ponta (nos times) aplicar os princípios e práticas do DA em seu dia a dia. No site do PMI® existem vários materiais básicos sobre DA; no Youtube também tem muito material sobre DA (infelizmente, a maioria em inglês); no LinkedIn existe um grupo sobre Disciplined Agile, no qual há bastante troca de informação e conteúdo; e vale a pena ler o “Choose Your Wow!”, disponível gratuitamente para membros do PMI® ou à venda na Amazon para não membros. Além disso, para quem é membro do PMI®, existem também uma comunidade global de práticas sobre DA. Outras dicas incluem: experimentar e testar, no nível que consegue, e conversar com pessoas que conhecem e já aplicaram o DA. Já para quem quer se certificar, o caminho é participar dos workshops formais para certificação, aplicados por profissionais autorizados.
Ainda nesta entrevista, Carla falou um pouco sobre as mudanças anunciadas pelo PMI® em relação aos níveis de certificação em DA e a certificação PMI-ACP® (para a qual existia dúvida, se seria mantida ou descontinuada):
Carla: As certificações em DA possuem 5 (cinco) níveis: Disciplined Agile Scrum Master (DASM®, antiga DALSM®), que é “similar” a CAPM no que tange a não-necessidade de comprovar experiência, mas apenas participar dos workshops e fazer a prova; PMI Agile Certified Practitioner (PMI-ACP®), passa a ser o segundo nível de certificação, já exigindo comprovação de experiência; Disciplined Agile Senior Scrum Master (DASSM®), que exige pelo menos 2 anos de experiência com liderança de times ágeis; Disciplined Agile Coach (DA COACH), que exige 3 anos de experiência como agile coach; e Disciplined Agile Value Stream Consultant (DAVSC®), que exige a certificação de DA COACH e 3 anos de experiência com ágil. Para os profissionais que já eram certificados em DA haverá reavaliação para validar se atendem aos critérios do novo framework de certificações ágeis do PMI®. Sobre a mudança nas certificações, o PMI® criou uma FAQ, que pode ser acessada aqui com as principais mudanças e dúvidas.
E aí, gostou da entrevista? Quer ver mais entrevistas com profissionais experientes no mercado? Deixe suas sugestões nos comentários!
Originally published at https://iniciagp.blogspot.com.